Análise do Comportamento
A análise do
comportamento é
a
explicação de um evento comportamental dada pela descrição das relações que
este evento sustenta com outros eventos (presentes ou passados). O que define
a prática do analista do comportamento é a investigação de efeitos
(conseqüências) cumulativos (dimensão histórica) de contingências ou
interações (passadas e atuais) sobre o desempenho atual do organismo através
de um recurso metodológico (análise funcional], experimental ou não
experimental). Baseia-se na identificação de relações funcionais, cujo
objetivo é identificar e descrever o efeito comportamental, buscar relações
ordenadas entre variáveis ambientais e a ação de um organismo, formular
predições confiáveis baseadas nas descrições dessas relações e produzir
controladamente esses efeitos predizíves.
- O objeto da análise do comportamento é o evento comportamental
Assim,
fazer análise do comportamento é determinar as características/dimensões da
ocasião em que o comportamento ocorre, identificar as propriedades públicas e
privadas da ação e definir as mudanças produzidas pela emissão das respostas
(no ambiente, no organismo). A essa tríade chama-se contingência tríplice, a
unida
de
funcional da análise do comportamento. Para Skinner, um evento comportamental
é o produto conjunto da história anterior de reforçamento do sujeito. Por
reforçamento, entende-se qualquer estímulo que aumenta a probabilidade de
respostas. Assim, pode-se dizer que o ambiente (externo – físico, social;
interno – biológico, histórico) seleciona grandes classes de
comportamento.
Seleção por
Consequências
O
modelo causal de seleção do comportamento por consequências foi proposto por
Skinner (1981). A explicação selecionista do comportamento é eminentemente
histórica, e abre mão de argumentos semelhantes aqueles do paradigma da
mecânica clássica. Em relação a este ponto,um erro freqüente nas críticas à
análise do comportamento é acreditar que, dentro do behaviorismo,
a
causa de um comportamento deve ser necessariamente imediata. Pelo contrário, a
causa de um comportamento não precisa estar próxima e imediata, já que a
causação imediata (se necessária) se opõe à explicação histórica – que, por
sua vez, incorpora a história da espécie, a história do indivíduo e a história
da cultura, considerando-se estas como três processos de seleção do
comportamento. A análise recai sobre o produto integrado desses processos
históricos, e sua separação ou análise é um artifício meramente didático ou
metodológico. O com
portamento
humano é o produto da ação integrada e contínua de contingências
filogenéticas, ontogenéticas e culturais (Skinner, 1981). Isso evidentemente
ainda passa pelo crivo de uma Análise Funcional de cada elemento destes
circunstancialmente. O que faz da Análise do Comportamento uma ciência
preocupada com a “prática” e a “função das coisas” na vida do sujeito. Não
se trata, portanto, de “aniquilar” um dado comportamento disfuncional, mas
avaliar as razões pelas quais ocorre e como implementar novos comportamentos e
de que maneira isto poderia ser útil na real vivência do indivíduo.
Embora Freud e os
psicodinâmicos estivessem igualmente interessados na base ontológica da ação,
Skinner adotou uma posição mais extrema, afirmando que todos estes fatores
conhecidos tradicionalmente como mentais são apenas comportamento, e devem ser
estudados como tal, sem ganhar posição de causa do comportamento (posição
defendida em razão da epistemologia desta ciência, o
Behaviorismo
Radical, o qual se opõe a explicações do comportamento internalistas,
sejam elas de carácter mentalistas ou organicistas). O comportamento pode ser
totalmente descrito, isso é, ele é mensurável, observável e perceptível
através de instrumentos de medida.
Segundo
Skinner,
os pensamentos e as emoções não podem ser causa do comportamento. Eles são,
antes, classes comportamentais especiais.
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externas
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Aguardem…
Aguardem o retorno do Littera.
Enquanto isso, divirtam-se com os arquivos.
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Adeus
O que procuras nos meus olhos tristes
eu já não posso te dar.
Por que me apego a teus olhos turvos
se os meus olhos tristes não conseguem te encarar?
E grito à noite em silêncio
e grito ao teu corpo junto ao meu.
E grito, grito, grito
mas tu não ouves o meu adeus.
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Teatro
Sou forte, venham todos
apóiem-se em meus ombros
ouçam meus conselhos
enxugarei vossas lágrimas
Sou forte, venham todos
alegrem-se com meu otimismo
sonhem com as estrelas que vos dou
deixem seus lenços comigo, não há motivos para chorar
Deixem seus lenços comigo…
à noite eles são poucos para enxugar o meu pesar.
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Muro dos afogados
Um dia eu vi o muro dos afogados. Era um lance deprimente. As pessoas ficavam se debatendo sem parar e, no fim, tudo que conquistavam era um afogamento cinematográfico. Era possível ouvir as pessoas dizerem que a vida é dura. É que é mesmo dura, saca?
Quero dizer, você vai vivendo esta vida como um vivo vivente qualquer, e de repente acontece um grandioso acidente de percurso que atira seu corpo para fora do carro e de um lado para o outro. Você vai batendo em tudo que está ao seu redor, e lá se vai um osso e outro e outro, e o crânio. Pô, o crânio é sacanagem! Mas bate, bate! Daí sua pele sai, vai dar uma volta pelo asfalto e se encosta em um muro de afogados qualquer. Como já não há mais pele, começa a dor diretamente na alma, que vai sendo dilacerada aos poucos, bem aos poucos. Sobra o que, caramba? Sobra o que? A impressão que dá é que a vida fez de propósito, como não ficar enfurecido com ela? Parece o ocaso, o fim mesmo, e então algo acontece!
Não se sabe de onde, nem por quê, mas algo acontece. Remendam sua alma de alguma maneira, com fita crepe mesmo, só para perseverar, entende? Ela não fica assim uma maravilha, mas, ei, é a sua alma e você nem pode pensar em se sentir frustrado. A pele volta ao seu corpo, liberta-se do muro dos afogados e corre. Parece até uma silhueta sua. Vem, coloca-se direitinho em sua posição original. Você até percebe que falta um pedacinho bem na sola do pé e que a cada passo vai sentir dor, só que está feliz mesmo assim, afinal, sua pele voltou. Pegam com uma pá seu cérebro e vão colocando dentro da sua cabeça. Ih, esquecem ali um ou outro neurônio sem importância, e aquela lembrança acaba se modificando… mas pode até ser para melhor, não há motivos para reclamar. Enfim, os ossos. Um a um são consertados com farinha e água. Está pronto. Quer dizer…
Você levanta ainda meio tonto, olha ao redor e vê que todos os seus queridos estão muito felizes com seu retorno. São eles que dão o toque final nessa operação de reconstrução. Passam uns pós em você, amarram seu cadarço e penteiam seu cabelo. Como novo! Você fica como novo, é maravilhoso. O acidente nunca é esquecido, claro, mas a felicidade de respirar novamente o ar humano é deliciosa! Aí algum amigo seu na melhor das intenções diz: “Agora você está pronto para outra”. Puxa, precisava ser tão otimista? Precisava lembrar da possibilidade de outro acidente? Ainda bem que você é forte e esquece essa idéia, consegue viver plenamente de novo.
Então você compra um carro novo, todo bonitão, depois de uma economia de anos. Coloca nele os apetrechos mais bacanas, cuida dele com amor e dedicação inatacáveis. Passeia com ele por todos os lugares; curte mesmo. Ganha confiança e começa a andar cada vez mais rápido, o prazer dominando em cada curva, em cada freada e aceleração. A vida é a mil por hora, afinal! Você se sente completo, inteiro, a pessoa mais especial de todos os tempos. E vai com seu carro cada vez mais rápido. É tudo realmente perfeito e mesmo assim a vida coloca alguma coisa na frente do caminho. Algo inesperado, inevitável, que não é em absoluto de sua responsabilidade. Você está feliz e de repente acontece um grandioso acidente de percurso que atira seu corpo para fora do carro e de um lado para o outro…
Eis a vida. Você cai e levanta sem parar. Não adianta querer que a coisa aconteça de outro modo.
Do que o texto tratava mesmo? Ah, claro, do muro, do muro. É que muro dos afogados é um lance meio estranho, certo? Se você parar para pensar direitinho, por que diabos acha que existiria um muro dos afogados? Não tem sentido, não. Era isso o que eu tinha a dizer: muro dos afogados não faz sentido. Então, sei lá, nade ou coisa do tipo.
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Se algo poderia ser diferente
Com a arma na mão, depois do tiro certeiro, encarando a cabeça aberta, o sangue escorrendo como que despreocupado, ouvindo as sirenes se aproximando, e o choro da sobrevivente encostada na parede, sentindo um poder doentio, junto com um medo absurdo, um cheiro de fumaça subindo da arma, um latido de cachorro preso pela coleira, coleira, cólera, descobrindo que tudo aquilo que era movimento estava ali parado, escorrendo a vida do cérebro que antes pensava e agora parece uma piscina estranha, ouvindo o choro da sobrevivente encostada na parede e as súplicas pela vida que está na mão de um assassino, sentindo tremer na carne alguma sinfonia libertária, tal qual os que têm a marca da mudança, coçando a pele na testa, como se na testa a marca da mudança se fizesse, desejando se ver livre da fraqueza humana, questionando o apego à vida, boicotando pensamentos que procuram basear a fraqueza, sentindo cada vez mais forte a liberdade de não ter esperança, abraçando a idéia de ser um degenerado absoluto, abrindo o caminho certo por métodos incertos, gargalhando um pouco de medo e um pouco de desespero da paisagem vermelha, ouvindo o som das sirenes encostando agora, olhando o cano da arma, olhando o gatilho capaz de mudar tantas vidas em um movimento, pensando no castigo do crime, argumentando que não era um crime, avaliando que só era um crime para uma parcela de pessoas prisioneira de poucas idéias, sentindo a marca da mudança a lhe perturbar a testa, questionando de onde tudo havia começado, olhando a esposa, a sobrevivente, chorar sobre o corpo do amante, apontando para ela a arma já usada, tirando da esposa a vida que ela lhe tirara, caminhando até o espelho, ouvindo o barulho da porta lá embaixo sendo arrebentada, caindo calmamente no chão do banheiro, amando aquela liberdade que vinha da destruição do comum, apreciando o grito dos policiais, os justiceiros perdidos de um ideal estúpido, marcando sua entrada em um mundo de outras regras…
Diante de tudo aquilo ele se perguntava se algo poderia ser diferente.
(Texto de aniversário para a Renata, que fez aniversário sábado. Tema livre, né?)
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Amor e necessidade
Estou do lado de fora do banheiro feminino esperando há cinco minutos. Deus sabe o quanto tive que passar para fazer o que fiz hoje, o tamanho da luta minha contra mim mesmo até que eu finalmente conseguisse que tudo estivesse no lugar certo. Mas Deus mostrou direitinho o tamanho que tem, e me fez para sempre pequeno enquanto espero desesperado na frente desse banheiro há cinco minutos. Lembrando como vim parar aqui, eu não seguro uma risada, que tento trancar na minha boca e sai como com um barulho estranho. Mas a risada podia ser igualmente um choro, porque não sei se minha história é drama ou comédia.
Acho que desde que descobri que gosto de meninas, naquela época da vida em que descobre que gosta de meninas, eu gostei de Amanda. Talvez eu tivesse descoberto que gosto de meninas muito mais tarde, e ficasse mais um tempo da minha vida sem sonhar e sofrer todas as noites, se não tivesse conhecido Amanda. Falar o nome dela é suficiente para que um milhão de memórias de coisas que nunca aconteceram encham minha cabeça. Seria tão bom Amanda correndo comigo, Amanda falando comigo, Amanda pelada comigo…
Eu espero que ela esteja neste banheiro por pelo menos cinco minutos…
Eu fiz dezoito anos, e aprendi a dirigir. Alguém colocou na minha cabeça que depois que eu tirasse carta eu poderia conquistar Amanda e, como sempre fui tolo, acreditei. Antes disso eu freqüentemente enviava cartas de amizade, e lhe dava chocolates, e tudo que um menino apaixonado faz por uma garota, mas nunca minha timidez permitiu que eu dissesse a ela o que eu sinto de verdade. Um pouco por me sentir ridículo em amar alguém que nunca havia me tocado. Eu prefereria, é verdade, amar Amanda apenas depois que ela me beijasse, mas não foi essa a ordem em que as coisas aconteceram.
Meu pai me emprestou o carro, pois sabia que com ele eu conseguiria coragem fantasma para convidar Amanda para sair só eu e ela. Fico me perguntando como fui me tornar uma pessoa tímida… Pelo que lembro foi uma combinação bastante curiosa de amor e mau tempo. Sendo que eu sempre amei Amanda, nunca me senti inclinado de falar com outra garota, e me lembro que há muitos anos atrás eu disse a Amanda que gostava dela. Ela estava em uma fase em que ainda não havia aprendido a gostar de meninos; pelo menos é o que concluo vendo tudo de hoje. Talvez se eu tivesse ido falar com ela um ano mais tarde ela diria que gostava de mim também… E eu não ficaria traumatizado e bobo todos esses anos.
Eu liguei para ela e perguntei se ela queria ir ao cinema. Ela respondeu que “sim”. Eu quase falei besteira no telefone, depois do “sim”, de tão excitado que me senti. Era como se o “sim” dela fosse ela abrir as pernas em posições iguais as dos filmes pornográficos. Acho que se alguém uma dia entender como um “sim” pode ser tão poderoso merece algum tipo de prêmio de estudos humanos. Ou animais.
Fui pegar Amanda com a minha melhor roupa. Ela estava mais linda do que sempre tinha sido linda. Vestia uma blusinha bem colada no seu corpo, e seus lábios estavam rosas do rosa mais excitante do universo. Ela estava de salto alto, e eu sabia que isso fazia com que ela ficasse da minha altura. E só depois dos joelhos é que sua saia aparecia (uma saia!!)… Antes de sair do carro eu me olhei pelo espelho do carro para ter certeza de que por algum motivo misterioso eu não estava preso para sempre naquela imagem de Amanda.
Eu abri a porta para ela e beijei seu rosto tão cheiroso. Ela me agradeceu com a voz de Amanda. A voz de Amanda, a mesma que disse “sim”, disse “obrigado” enquanto entrava no meu carro com uma saia (uma saia!!)… Eu comecei a dirigir pensando que provavelmente nós não chegaríamos ao cinema porque eu bateria o carro hora ou outra perdido em pensamentos.
Nós sentamos na praça de alimentação do shopping e Amanda disse que tomaria cerveja. Aquele conceito não era fácil para mim, mas Amanda tinha razão. Agora eu tinha carta, dezoito anos e estava com uma garota maravilhosa. Sem dúvida nenhuma eu devia tomar cervejas. E tomei algumas, mais do que nunca, pois nunca havia tomado. E foram as cervejas que me colocaram, uma hora ou outra da minha vida, na frente deste banheiro feminino há agora sete minutos.
Durante nossa conversa enquanto bebíamos cerveja, eu disse a Amanda que a achava muito bonita. Acho que a cerveja disse em meu lugar, na verdade. Mas depois conversamos bobeiras até o filme começar. Eu nunca poderei dizer do que o filme se tratava, pois eu estava mais preocupado em descobrir um sistema perfeito para agarrar a mão de Amanda. É engraçado pensar que eu não queria dar bandeira de que eu estava a fim dela, mas não havia outro jeito de eu um dia beijá-la sem que ela soubesse que eu estava a fim dela. Esse deve ser algum tipo de paradoxo que os garotos bestas como eu enfrentam.
Lá pela metade do filme um outro problema se apossou de mim. Agora além de me preocupar em botar a minha mão na mão de Amanda, bem próxima àquela saia dela, eu tinha que me preocupar com uma vontade ignorante de mijar. Mas que coisa, eu pensei! A vontade era forte o suficiente para lutar contra Amanda. Eu não podia aceitar que um amor pudesse ser superado por uma porcaria de uma vontade de ir ao banheiro. Não fazia o mínimo sentido! Eu não iria ao banheiro.
Depois de certo tempo, sem perceber, eu pensava em Amanda não como uma mão em que pôr a minha mão, e uma saia a quem olhar por baixo… Pensava nela do modo do amor mais puro, que tinha que vencer tudo, até mesmo a vontade mais absurda de ir ao banheiro. Era a natureza contra o sentimento superior, e Amanda tinha que ganhar da minha bexiga ridícula. Por esse tempo, eu não tentava mais tocar Amanda, eu pensava nela como um farol que me guiava contra as trajetórias insanas do corpo.
Quando o filme acabou eu agarrei a mão de Amanda com firmeza! E vi nos olhos dela que ela ficou admirada. Ou assustada, mas prefiro a primeira opção. Mas não agarrei a mão dela por coragem, por ser qualquer tipo de príncipe cavalgando qualquer tipo de cavalo branco ou sei lá. Agarrei para puxar ela para fora do cinema o mais rápido possível. Eu estava tão desesperado para ir ao banheiro que decidi que daria um beijo nela o quanto antes para poder mijar o quanto antes. Quando pensei aquilo eu juro que me achei genial. Utilizar o inimigo como um aliado e disfarçar o desespero em um ato de coragem e atitude.
Quando pisamos fora da sala de projeção, olhei nos olhos de Amanda e disse “eu te amo”. E antes que ela pudesse responder eu dei um beijo nela, um beijo que eu nem senti. Um beijo absolutamente ridículo, em todos os sentidos que a palavra ridículo pode significar. Era ao mesmo tempo meu primeiro beijo, o beijo pelo qual eu havia esperado quase a vida toda, o bejio que devia dizer a Amanda o quanto eu a amava, o beijo que deveria ser perfeito, enfim. E este beijo saíra como um foguete apressado, de uma vontade mais de mijar do que de beijar, tentando se aproveitar de um desespero para se fingir corajoso. Aquilo me fazia sentir ridículo…
Logo depois do beijo fiquei alguns segundos olhando para os olhos de Amanda, tentando apreender qualquer tipo de pista sobre o que ela havia pensado, sentido, ou o que for, daquele beijo e da minha declaração. Após esses segundos eu berrei “já volto” enquanto corria desesperadamente em direção ao banheiro.
Abri as calças, coloquei meu amigo para fora e descobri o que era o paraíso. Enquanto eu mijava eu me perguntei se um dia qualquer tipo de amor poderia ser tão absolutamente delicioso quanto aquela sensação de alívio. Eu descobri naquele momento que tudo que eu sentia por Amanda não era nada comparado à sensação que tirar de mim aquele fardo proporcionava. Mas conforme eu fui me esvaziando de desespero, meu amor por Amanda foi novamente se impondo como o sentimento mais forte. Isso me fez desconfiar que o ser humano é a coisa mais volúvel do mundo, podendo amar e desamar por motivos idiotas como a vontade de ir ao banheiro. E que devia haver alguma espécie de equilíbrio de forças que impossibilitavam que dois grandes sentimentos ocorressem ao mesmo tempo. Depois de limpar de mim aquele sentimento horrível, eu novamente era só amores para com Amanda.
Eu precisava encontrá-la de todo modo, dizer o quanto antes que eu a amava realmente, pedir perdão por sair correndo, dar um outro beijo, um segundo que deveria ser considerado o primeiro beijo, aquele que devia ser o beijo dos beijos. Mas não a encontrei em lugar nenhum. Olhei para os lados, corri por um certo tempo de um lado para o outro, até que decidi que ela estava no banheiro ou tirando do corpo a cerveja ou fazendo outra coisa qualquer.
E agora estou há oito minutos aqui na frente, esperando sair por aquela porta a mulher que amo, a mulher que primeiro beijei e que em uma noite só foi capaz de me fazer entender mais sobre a vida do que muita gente idiota que já vi por aí. E claro que estou envergonhado, meio chorando e meio rindo dessa história toda.
É a décima vez que a porta abre. Eu espero que seja ela. Sim, é ela! É ela! É ela… É Amanda… estou tonto… ela sorri?
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Injustiça
Doces poetas,
por que fizestes os mais belos versos
e deixastes as rimas pobres para mim?
Não, não reclamo, nem invejo,
Mas é injuto os bons poetas terem fim.
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Um dia de multidão
Saio de casa pela fila de segunda
para estudar em uma classe de sonâmbulos
e almoçar em um restaurante de segundos.
Volto pra casa em uma fila de sexta
para curtir em uma festa de zumbis
e enfim dormir sonhando sonhos de terceiros.
Fim de semana eu me junto em uma roda
para discutir essa questão de ser igual
e procurar as diferenças desses quartos.
Domingo à noite eu me tranco sozinho
para pensar a semana e então percebo
que as diferenças já se foram para os quintos!
Um dia de multidão
Um dia na multidão
E somos todos multidão
E somos todos multidão
As diferenças que rogamos como nossas…
as alegrias de pensarmos como somos…
pensar que pensamos além, do outro lado…
o pensamento de que aquilo é o povo…
chamar o povo de rebanho conformado…
e rir cantando o riso dos pseudo-sábios…
E os pastores?
Não há pastores
E somos todos multidão.
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Uma carta a ela
Teresa,
Tenho, neste corpo cansado, uma vida inteira sem marcas.
Nada mais do que memórias pesando em um lado da balança.
Não são tantos os mistérios para um corpo sem limo ou poeira.
Mas sob o bote dos meus olhos na luz, um desejo reina absoluto.
E é este desejo, um desconhecido constante, que me deixa à pele.
O pensamento em você é o elemento de ouro na pobreza do mundo.
Quem sabe um dia. E então para sempre.
Bruno.
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Splash
E ele olhou para o lado e
Splash
Havia algo para fazer
Algo que ele não queria
Ele fez e saiu para
Divertir-se naquela casa e
Splash
Ninguém havia como ele queria
Splash
Aconteceu quando ele pensou
Por um momento que agora
Mas não, não era como ele queria
Do alto do mundo
O mundo já torto dele
Aquele vento todo no rosto e
Splash
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Trilhos
A vida às vezes é assim, um trilho no meio das pedras e a gente tem que fazer escolhas. Às vezes o vento escolhe pela gente, ou a gente deixa pra lá, fechas os olhos e segue em frente. Às vezes, mesmo com os olhos bem abertos, a gente tropeça e esfola os joelhos no chão, e machuca as mãos e dói. Dói por dentro.
Quando a dor aperta é bom poder sentar assim e olhar pro mar. E sentir o sol. E sentir o vento. É bom saber que não se está sozinho. Mesmo que às vezes tudo o que tenhamos seja a nossa própria companhia. Às vezes tudo o que se quer é ter a nossa própria companhia. E só.
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A máquina que diz o mundo
Luiz Carlos entrou no enorme ambiente de paredes de metal e se impressionou com a imensa máquina que ocupava a sala quase que completamente. Era uma máquina monótona, um paralelepípedo enorme e cinza, com uma porta preta e uma grande inscrição, que era ao mesmo tempo um aviso e um desabafo.
Impressionado com a precisão reta das curvas do metal liso e sem defeitos do aparelho, Luiz Carlos se aproximou da porta preta. Leu a inscrição, sobre a qual havia sido avisado para atentar:
“Caro usuário, sou o criador desta máquina amaldiçoada. Não fosse minha incapacidade de destruí-la, eu o teria feito. Eu a terminei seguindo os projetos de cem antecessores e seus grupos de pesquisa. Cada um desses grupos acrescentou dados ao projeto inicial e fui, com minha equipe, o responsável por ligá-la pela primeira vez. Seremos conhecidos até o fim da humanidade como os destruidores da liberdade”.
“Não importa para você, neste momento, conhecer os complexos mecanismos de funcionamento da máquina. Serei o mais breve possível, alertando-o sobre o inferno que este aparelho lhe trará caso seja acionado”.
“A máquina realizará um mapeamento completo da estrutura e funcionamento do seu corpo, do seu ambiente e das pessoas com as quais você convive. Verificará um banco de dados que atualiza diariamente, e que guarda centenas de anos de informações, a fim de precisar o resultado. As informações obtidas serão consideradas em uma análise histórica e genética. O resultado dos cálculos é 100% preciso”.
“Este computador de funcionamento extraordinário se baseia na descoberta de que os fatos estão determinados pelos fatos imediatamente anteriores a eles, em um fluxo inexorável. Assim, se as variáveis todas forem conhecidas, a previsão do que acontecerá é segura. É extraordinário e assustador”.
“O conhecimento será implantado no seu cérebro. Infelizmente, a máquina também considera no cálculo todos os pensamentos concernentes ao novo conhecimento, o que impede que você restabeleça sua antiga ilusão de liberdade”.
“Um dos usuários vive uma vida quase normal (Augusto Seimor, 9555-5555). Ele será atropelado às 16:02 do dia 20 de março. Recomendo que tente falar com ele se ele ainda estiver vivo”.
“Este aviso é inútil; bem sei que apenas cumpre um papel no funcionamento do mundo, sendo um mínimo estímulo de incentivo ou de afastamento. Ainda assim, senti-me obrigado a escrevê-lo. Saia desta sala agora e viva sua ilusão de escolha. Perdoe-me por ter criado esta máquina desgraçada”.
“Você seguirá um caminho que não pode ser decidido nem por mim nem por você”.
Durante muito tempo Luiz Carlos pensou sobre o incrível poder da ciência e da prova última da sua superioridade, manifestada naquela incrível máquina capaz de dizer o mundo. Era impressionante o assombro que descobrir a vida causara nos usuários da grande caixa cinza. Agora estava ao seu alcance a chance de saber tudo o que aconteceria sem ter de esperar e suar a ansiedade. Não importava as conseqüências, nunca tivera sensação de liberdade, de qualquer modo. Tinha sede de conhecimento!
Como seria conhecer até o fim da escolha?
Entrou na máquina tremendo um pouco. Pensou que não tinha dúvidas, mas antes de fechar a porta um impulso o fez ligar para Augusto.
— Alô!
— Augusto?
— Sim. Quem é?
— Meu nome é Luiz Carlos e estou dentro da máquina que você usou há um tempo atrás e que em teoria lhe revelou a vida. Estou pensando em acioná-la, o que você acha?
— Escuta, Luiz Carlos, eu sofro de perda de memória. É possível que eu tenha usado essa máquina, mas não serei cap…
Luiz Carlos ouviu um carro derrapando e um barulho sem ecos. Seu relógio confirmou o que ele já sabia: era 16:02h do dia 20 março. A cabeça girou e ele caiu tonto no chão de metal, procurando uma explicação. Não era mais capaz de pensar direito. Assustado, embevecido, maravilhado, fechou a porta, acionou a máquina e lembrou de Bárbara, como se isso fosse ajudá-lo a reconquistá-la.
Não houve barulho, nem aviso. De repente tudo fez sentido: nenhum.
A angustiante narrativa foi de Luiz para ele mesmo. E o que ele soube foi o que aconteceu…
Eu nunca mais estarei com Bárbara. Tentarei reconquistá-la de várias maneiras e falharei em todas. Descobrirei, para meu desgosto, que serei impotente em controlar os acontecimentos da minha vida. A idéia de que somos capazes de tudo é falsa. Viverei com essa certeza até o fim dos meus dias.
Conhecerei o desespero depois da quarta tentativa de estar com Bárbara. Saber disso antes de realizar essa tentativa não me torna capaz de me parar, pois estarei impelido ao encontro dela para além de forças conscientes. Depois da quinta tentativa estarei cansado e desistirei de viver com ela; terei 30 anos e idéias.
Meu filho nascerá de uma mãe que odiarei. Brigaremos em casa e brigaremos na justiça pela guarda do menino. Nunca obterei a guarda, pois o juiz me considerará incapaz de cuidar de uma criança, já que direi coisas desconexas sobre o que vai acontecer. Aprenderei, somente nesse dia, a me calar. Mesmo sabendo que não conseguirei morar com o menino, meu amor por ele vai me impulsionar às tentativas frustradas. Sentirei esperança: ela vive até mesmo na certeza do fracasso.
Eu e meu filho, que nomearei Augusto, seremos bons amigos. Felizmente nunca ficarei sabendo da sua morte, pois ele morrerá depois de mim. Eu o ensinarei valores consistentes e contarei a ele que o mundo é o fluxo inexorável que me atropela um pouco por dia. No meu último dia ele será um homem incrível.
Conseguirei um bom trabalho: gerente de uma rede de lojas de materiais eletrônicos. serei rico e nunca passarei necessidade. Ao contrário do que pensei quando liguei a máquina, não preverei alternativas às diferentes decisões que poderia tomar. Isso porque não há verdadeiras decisões a tomar. Todos os acontecimentos são como lançamentos de dados que podem ter seu resultado previsto depois de medidas suas variáveis.
Depois da mãe do meu filho iniciarei uma relação com Amanda, uma linda mulher cujos olhos vão me hipnotizar desde a primeira vez em que os vir, no estacionamento do meu prédio. Ela me dirá que sempre me vê por ali e eu a convidarei para jantar. Nunca mais nos deixaremos. Ela mora lá hoje, no apartamento 307, mas esquecerei disso, ou terei outras coisas em que pensar. Eu a encontrarei no dia certo. A paixão que sentiremos nos acompanhará até meu último dia. Todas as noites recitarei poesias para ela e ela me sorrirá um rosto perfeito.
Eu a trairei com uma funcionária da loja. Ela me trairá com um amigo do meu filho. Descobriremos isso em casa, em um momento de desabafo mútuo. Isso acertará nossa relação e nos tornaremos ainda mais próximos. Ela me abraçará por horas e faremos amor.
Arrependerei-me do uso da máquina somente duas vezes: hoje e no fim. Há um apego à vida que me empurrará para cima. Realizarei ações com força, mesmo sabendo que elas foram desenhadas ontem. A única diferença entre mim e os outros será meu conhecimento de que sigo o fluxo. O prazer da vida é fundo no corpo.
Certo dia, acordarei velho e me sentirei bem por ter vivido. Tentarei não andar até o banheiro, mas me empurrarei para lá. Uma curiosidade mórbida vai me obrigar a me olhar no espelho. Momentos antes de me ver refletido terei vontade de gritar ao mundo que os desejos são maiores que os músculos. O espelho será minha morte, eu sei, e a procurarei a favor e contra mim, aliviado e desesperado.
Meu reflexo mostrará um sorriso indecifrável, um igual ao que sorri no meu décimo aniversário, quando pedi uma bola para meus pais humildes e ganhei a bicicleta que secretamente desejava. Meu último pensamento será “eu quero mais vida”. Perderei a consciência. Não saberei o que me matou, nem se há algo após a morte, nem se meu filho terá um filho como ele.
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Dor
Só quem “dói” pode entender
e quem não dói e não entende como dói
que não me aborreça.
Tenho dor de amor
dor de saudade
toda a dor do mundo.
Mas o que me mata nesse instante
é mesmo essa maldita dor de cabeça.
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Os lagos
Sem querer eu percebi que nunca poderia ser feliz se não fosse capaz de tocar o fundo do lago ao mesmo tempo em que, de fora dele, observo as ondas na superfície. Sabendo disso, caminhei por dias em busca de uma solução, pois me ensinaram que tudo tem uma solução. É uma vida descomplicada, esta de soluções. É ridículo, e fico com um pouco de vergonha…
Cruzei a sala da minha casa sem dizer oi para meus filhos. Subi até minha mais idiota idéia e tirei de lá todo o dinheiro que eu tinha no cofre. Cruzei a sala da minha casa sem dizer oi para meus filhos. Gastei a minha mais idiota idéia em todo o meu dinheiro. Agora, será que o vento no rosto pode ser substituído?
O lago me esperava com sua beleza discreta, e eu respirava o ar puro da região como se tivesse descobrido o sentido de tudo quanto existe. Enquanto eu fincava o tripé no solo macio, e conectava a bateria na solução, senti amor por mim, um daqueles que junta tudo que há de bom em nós e esconde no carpete a sujeira acumulada. Um desses amores sem razão, que talvez seja mais uma justificativa para ser tolo do que uma admiração real.
Peguei na mão um punhado de arrependimento em forma de aparelho impulsivamente adquirido e mergulhei para tocar o fundo do lago. Passando a mão pela areia grossa do lago, e sentindo a alegria imensa do contato do mundo com o corpo, olhei pela tela as ondas na superfície da água. Levantei minha mão para derrotar o espaço, e me vi ao vivo em dois lugares ao mesmo tempo. Minha mão no cascalho desenhando imagens, e minha imagem ondulando a água no topo. Já não cabiam perguntas, nem dúvidas… exceto que meus pés não tocavam a terra.
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Só o que fica
a gente luta tanto pelas coisas
coisas tolas
coisas vãs
e no fim só o que fica é o amor
o amor que se sentiu
o amor que partiu
o amor que feriu
o amor que foi feliz
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Encontro
Por onde será que tenho andado
esse tempo todo?
Já não me reconheço em mim
Se a pessoa que fui sempre esteve nos outros…
Espero um dia estar caminhando
Pensando no futuro, nas minhas realizações
E durante o vento morno das tardes
Dar de frente comigo.
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Comportamento é…
Comportamento é olhar-se no espelho e não entender como aqueles olhos podem ver.
É ver fotos de grandes Cientistas e Literatos e não compreender como aquelas faces tão comuns puderam ser tão geniais.
É ouvir aquela voz tão linda sair de uma boca ordinária.
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Sobre o beijo
“Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.
Tu me olhas, de perto, tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de “ciclope”, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se, e os “ciclopes” se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas tuas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos, como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água.”
Júlio Cortázar, extraído de “O jogo da Amarelinha”.
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Noite
Quando a noite cai
Eu devo me pôr
Para que os segredos permaneçam segredos
E minhas palavras não revelem o meu caminho
É noite
E ainda há tanto a ser feito
Para que o sol possa nascer
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A flor no parquinho
Eu andava até o parque cantarolando canções dos meus sonhos. Todas as vezes eu pegava uma das flores amarelas do bosque e sentia sua textura macia, e a beijava, tentando aprender a ser bela; eu queria ser convidada para aquele mundo. Os contornos delicados das pétalas casavam com suas cores vibrantes, parecia que um rio de vermelho nascia na montanha do amarelo e descia caudaloso para desaguar no centro daquele espetáculo. Então eu a prendia gentilmente ao meu cabelo e meu coração batia acelerado por saber que eu estava mais bonita.
Sentava-me no banco, de frente para as crianças brincando no parquinho. Meu desejo era estar com elas, escorregando, girando, me enchendo de alegria na caixa de areia, para ser também a pessoa mais feliz do mundo. Por vezes eu quase me levantava e cedia ao impulso, mas tinha vergonha dos olhos dos outros julgando meu corpo não tão jovem. Ao invés do parque, eu olhava as nuvens e tentava adivinhar em qual das muitas formas no céu estava escondido o que era o amor.
…
Roberto me levou ao parque no nosso aniversário. Quando ele sorria para mim eu me sentia a mulher mais importante do mundo. Fomos até o bosque e ele pegou a flor amarela da qual eu tanto lhe falava. Colocou-a ao lado do meu rosto, e tive calafrios ao perceber que ele nos comparava. Eu tive medo de que ele visse que eu não era uma flor. Ele olhou por muito tempo para nós duas antes de abandonar a flor para me beijar. Eu soube o amor naquele momento. Então tomou minhas mãos e me levou ao parquinho, e eu descobri que não tinha vergonha dos olhos dos outros enquanto Roberto olhava por mim. Foi um dia delicioso. Pouco antes de irmos embora, olhei para o céu para me despedir das nuvens; agora eu sabia o segredo.
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Fatalidade
Não, não foi planejado.
E, no entanto, não se sentia consumida pela culpa, como imaginara.
Pelo menos, não mais agora.
Se por apenas alguns instantes ela se deixasse levar, notaria que uma serenidade estranha ia tomando conta de tudo… Doce sensação de familiaridade.
Foi, na verdade, como a calmaria chegando depois de noite tempestuosa.
Em meio às dúvidas, momentos felizes reluziam, assim como pequeninas estrelas na manhã mais radiosa de que podia se lembrar.
(Abro aqui um parêntese. Isso porque não é fácil descrever coisas como estas que andaram acontecendo, situação essa que fugiu totalmente do controle; ora, como se alguém pudesse controlar todas as variáveis e/ou constantes de uma situação qualquer que seja, como em um laboratório. Trata-se talvez de uma fatalidade. Ainda penso que somos produto de nossas escolhas, mas nem sempre temos a chance de escolher…)
Com apenas um passo para o lado, obtém-se novo ângulo de visão.
Perspectivas totalmente diferentes.
De repente, o mundo pareceu encher-se de música.
Passos oscilantes, como os de quem avança muito cautelosamente, somam-se aos dias únicos, vividos como se fossem os últimos.
Ela não sabe realmente do que se trata. Não é algo linear, nem simples. Mas é algo que transcende o visível, que burla as barreiras do previsível, e calmamente vem alojar-se no seu íntimo, como uma resposta irônica a tudo que ela conhecia por verdade.
Enfim, apenas aconteceu.
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A letra “a”
Ela. O rosto dela. Ela caminhando absorta, num sonho que é moldura para vê-la pura.
Eu ao lado dela não paro, cumpro meu desejo de vê-la forte, de amá-la, de abraçá-la quando fraca, de rir com ela quando a face dela admirar o mundo.
As costas, as pernas… eu me perco no umbigo dela, para baixo ou para cima eu a vejo completa. Eu a gosto inteira. Adoro, amo. Ela brinca no meu peito, eu durmo em sua alma.
Quando brava, adoro a boca fechada, as sobrancelhas quase más, os gestos bruscos de revolta. Eu a amo ainda mais, pois no fim ela me vela a noite toda com medo de que eu parta, que deixe de vê-la.
Menina minha. Amo quando ela me ama, e diz que me precisa, que é minha moleca. Ela sabe que sou dela, que a ela endereço a vida.
Na chuva forte, embaixo da coberta, eu a abraço toda, ela derrete esparramada no meu corpo. O trovão nos some a alma, e por um momento ela é “o” e eu sou “a” e nunca mais sabemos. Eu sexo e ela sexa até não termos.
Esperta Linda Sábia Princesa. Toda Louca. Casta Pervertida. Pega e me encanta. Calma. Agitada. Incrível combinação de opostos, ela.
Nua. Farta. Totalitária. Mascara, mas cai no encanto, e é também flauta que escuto. Sigo. Sigla, ela. Ambos caídos na sujeira, lavamos silêncio e juntos de novo.
Ela me completa, o “a” do meu amor. Meu alvo, minha bela, meu desejo é torná-la toda.
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Ao nobre santo São Pedro
Prezado São Pedro, Com todo o respeito que tenho pelo senhor, e apesar de certa mágoa pessoal (lembra quando eu morava em Floripa e tinha uma moto e sempre chovia quando eu saía com ela? E quando chovia nos meus finais de semana de folga?), resolvi lhe escrever essa carta. Com todo o respeito (desculpe, peguei o vício de ter todo o respeito assistindo às CPIs), ou o senhor está dando uma de Santo decaído ou aquele alemãozinho safado (o Alzheimer) tá pegando firme aí no céu. Vejamos.
Eu comecei a achar que as coisas estavam indo mal quando os cientistas inventaram que podiam ser mais exatos na definição das estações do ano. Lembro que, na escola, aprendi que o verão começava em 21 de dezembro, o outono em 21 de março, o inverno em 21 de junho e a primavera em 23 de setembro. Fácil, fácil. Aí, de uns tempos pra cá, inventaram que podiam prever melhor os solstícios e equinócios e o verão começou a começar em 20 de dezembro äs 14h53min, o inverno no dia 20 de junho, às 18h37min, e no ano seguinte as datas e horários já mudam novamente. Tá certo que esse pessoal adora avacalhar com as pobres criancinhas da escola, e achei que podia ser só mais uma pegadinha deles.
Outra coisa que eu aprendi na escola: o Brasil tem um clima tropical e, na região sul, há o clima tropical temperado. O senhor lembra a diferença? Eu não lembro muito, mas uma coisa que lembro é que o primeiro tem apenas duas estações bem definidas e o segundo… O senhor lembra, lembra? Pois bem, na região sul, nosso clima tem QUATRO estações bem definidas… Ou tinha, né, mocinho? Pois é aqui que acho que o senhor anda mal: ou o está fazendo de avacalhação, pra ver a gente sair cheio de casaco e depois passar calor, ou então ver todo mundo ficar gripado e com ataque de bronquite por causa das mudanças bruscas, ou o senhor ta gagá mesmo. Aqui, o verão era quente, bem quente, com chuvas no fim do dia; o outono uma estação agradável e pouco chuvosa; o inverno chovia pouco e era muito frio (até geava em Florianópolis) e a primavera não era essa coisa chumbrega que estamos vivendo agora! Esse ano, passei um calor fora de série em julho e, agora que era pra melhorar, vivo morrendo de frio.
Sem querer ofender, São Pedro, se o senhor está gagá, é preciso enfrentar o problema. Não vai adiantar muito ficar mandando furacão nos EUA e ciclone extra-tropical pra assustar o pessoal aqui do sul. Há tratamento e, em último caso, tenho certeza que o senhor encontra um santo à altura do cargo. Não recomendo santas porque Deus me livre de ficar nas mãos de uma mulher durante a TPM dela! Se a questão é que o senhor decaiu mesmo e anda se bandeando pros lados de Lúcifer, vou já incluir nas minhas preces um pedido para abertura de uma CCI (Comissão Celestial de Inquérito), exigindo sua cassação.
Com todo o respeito ao nobre santo,
Sabrina
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Olhar
… e quando ele me disse isso, eu pude olhá-lo com um outro olhar, mas um olhar que eu já conhecia, o mesmo de quando nos conhecemos ou nos reconhecemos, ou nos reencontramos, sei lá. E esse olhar era de uma total estranheza mesclada de admiração, misturada ainda com a vergonha de ser vista assim, tão nua, sem máscaras, despida de todas as minhas artimanhas ou joguinhos para conseguir o que quero. E eu sentia ao mesmo tempo uma enorme admiração e uma pontinha de raiva, a cabeça explodindo e os olhos inchados, mal podendo acreditar na criatura que estava bem ali na minha frente. Mas era verdade, era tudo verdade, eu estava sofrendo dores de um futuro distante, consequências de erros que nem havíamos cometido ainda, estava esmagada sob o peso de todos os nosso pecados ainda esperando por serem cometidos. Mas se apenas você me abraçasse… Então poderíamos seguir errando novamente, sem refletir sobre os nosso atos e aí sim um dia atingiríamos o grau de sofrimento que eu entrevi aquela noite. Você, porém… Não me abraçou, nem me tocou, e falava frio do seu canto que precisávamos refletir. E pela primeira vez alguém conseguiu não cair na minha armadilha, conseguiu não reforçar meus comportamentos errôneos, e me fez entender que os erros não precisam ser cometidos, não ‘temos que’, não ‘devemos’ fazer isso ou aquilo para semos felizes, e então você me tocou e eu ainda não te queria perto por te considerar tão certo a ponto de sentir desprezo por mim mesma, sentimento que foi se dissolvendo em água quente e…
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Mais uma noite de cores
I
A luz entrou pelo buraco da cortina e deslizou pelo rosto de Humberto até chegar ao olho do Buda de madeira sobre a cômoda; e então desapareceu. Humberto acordou com dor de cabeça pela primeira vez em muitos anos; não sabia como lidar com o problema. Decidiu ficar parado alguns minutos. Havia sonhado com a festa que lhe seria oferecida pela prefeitura na sexta-feira, homenageando-o pelo trabalho na ONG que criara anos atrás.
Sentou-se na cama e esticou os braços para abrir a janela. Era um belo dia de maio. Do quarto, Humberto podia ver o pátio da ONG. Via o chão pintado com os quadrados da amarelinha e os desenhos nos muros do prédio principal. A luz do sol ampliava a vivacidade das figuras, formando um retrato fiel da vida na instituição.
Humberto ficou na janela. Dali a pouco as crianças sairiam dos dormitórios e iriam ao pátio para o aquecimento matinal. Depois tomariam café da manhã falando sobre os jogos de domingo. Na segunda-feira todas as turmas faziam educação física no primeiro horário. No segundo, voltariam para a sala de aula. Ao meio-dia almoçariam no meio da algazarra incentivada pelos professores e cuidadores. Nas tardes de segunda podiam escolher entre aulas de teatro, informática ou música. Uma programação bela, que Humberto montara cuidadosamente. Naquela noite, particularmente, começariam os preparativos para a festa organizada pela prefeitura.
Humberto tomou banho rapidamente e vestindo-se na frente do espelho interrogou-se sobre seu interesse na festa. Nunca fora dado a agradecimentos; considerava essas homenagens um desperdício de dinheiro que poderia ser usado na ONG. Procurava a origem daquela ansiedade tão estranha a ele. Ao sair do banheiro surpreendeu-se: estava arrependido por ter doado o dinheiro que havia separado para substituir a cortina furada.
II
Na quarta-feira, alunos, professores e cuidadores juntaram-se depois do almoço. Esperavam pela reportagem sobre a ONG, olhando fixamente para a TV colocada de improviso no pátio. O professor Fernandez estava radiante. Explicou em voz alta sobre a importância da reportagem para a instituição. Ela chamaria a atenção de pais, crianças e, se tudo desse certo, de pessoas dispostas a colaborar.
Tavinho, um dos meninos da ONG, foi correndo buscar Humberto, a pedido de Fernandez. Encontrou-o em sua sala, suando e chorando um pouco. O que foi, tio? Nada, não, Tavinho. Por que cê tá chorando? Não é choro, não, é suor, tá vendo? Ah, tá bom; o pessoal tá lá no pátio te esperando, tio. Já tô indo, Tavinho, fala que eu tô indo.
A dor de cabeça perdurava desde segunda-feira. Sentia vontade de ir embora, de poder abandonar a ONG por pelo menos duas semanas. Talvez visitar alguma praia. Checou a agenda, esperançoso, mas não havia novidades: compromissos quase todos os dias.
Nunca estivera tão cansado e com tantas dúvidas; e justamente na semana em que viria o prefeito cheio de sorrisos dizer que estava admirado com a ONG. Admirado estava Humberto, que estranho a si mesmo aguardava pelo prefeito ao mesmo tempo em que desejava estar em outro lugar.
A reportagem começou. Em entrevista, Joana, coordenadora da ONG, falava sobre o sistema de ensino adotado pela instituição. Mostrou as salas de aula, o pátio, as crianças, os dormitórios, e comentou sobre os funcionários. Fernandez, por sua vez, narrou comovido a vida de rua que Humberto levara antes de ser acolhido por uma família. Quando a entrevistadora perguntou por que o próprio Humberto se recusara a dar entrevista, o professor comentou que não era do feitio dele receber créditos por algo que considerava o natural a ser feito.
Sozinho em sua sala, Humberto chorava.
III
— Humberto, posso entrar?
— Claro, Joana, entre, entre.
— Ficamos te esperando. Você não ouviu o coro das crianças chamando seu nome?
— Ouvi, sim, mas não quis ir. Estou me sentindo estranho, Jô. Sinto dor de cabeça e nada parece certo.
— No que está pensando?
— Estou cansado… Queria poder sair por um tempo. Tem várias perguntas na minha cabeça; eu já sabia a resposta para a maioria delas, é como se eu as tivesse esquecido. Preciso de um tempo…
— Nossa, Beto! Nunca vi você desse jeito.
— Isso começou segunda, Jô.
— Beto, não precisa se sentir assim. Vê como todo mundo te adora? Olha o que você já fez. Vai até ter uma festa pra você…
— É isso que mereço? Uma festa, Jô? Jô, eu nunca acreditei em merecimento, em recompensa, seja o que for. Como se o mundo fosse retribuir de alguma forma qualquer coisa feita. Ninguém tem obrigação de retribuir, muito menos o mundo. Ainda menos com uma festa. Tudo que fiz foi por que eu quis. O problema é que já não sei o que quero.
— Você costuma dizer pras crianças que está errado pensar só em si mesmo. Não é isso que cê tá fazendo?
— É… Eu tô pensando em coisas que havia apagado desde que me tiraram da rua. Estava tudo tão bem, como um branco em que tudo era bonito. E hoje tô vendo montanhas, depressões e cores horríveis.
— Como assim, Beto?
— Não sei, Jô. Eu tô muito cansado e com um pouco de raiva.
— Você tá me assustando, Beto
— Eu tô me assustando, Jô. Mas, por favor, não diga nada a ninguém. Eu me acerto.
IV
Na sexta-feira de manhã Humberto acordou nervoso, mesmo percebendo que seu conflito havia abrandado. Sua cabeça doía a dor já familiar da semana toda. Havia comprado pílulas para lidar com ela. Antes de sair da cama, tomou nas mãos o Buda de madeira, presente da família que o acolhera. A pequena escultura parecia sorrir para ele. Humberto encarou por muito tempo aqueles olhos nem acima nem abaixo de quaisquer outros, imaginando o que havia perdido. Depois de alguns minutos colocou o Buda na gaveta, longe do sol.
Depois do banho, abriu o armário e tentou imaginar qual dos dois ternos sua esposa escolheria para ele. Provavelmente ela diria “o azul marinho, capitão”, lembrou sorrindo. Fazia dois anos que ela falecera. Humberto amava-a intensamente, mas não sofrera com sua morte como era suposto sofrer.
Na noite do enterro de Camila foi capaz de compreender a paz que construíra. Amigos e familiares estavam inconformados, e ele os apoiava mesmo não sentindo dor. Amava o mundo com tanta devoção, que tudo quanto havia tinha para ele a mesma importância. Aprendera, sem ter consciência disso, a admirar a própria finitude como processo natural da existência. Era triste dizer adeus à esposa, mas o resto do mundo era igualmente amável. Nada para ele era acima de nada, nem ele era mais do que um pedaço dos acontecimentos. Era empático. Compreendia e compadecia-se pelo sofrimento de cada ser que dividia com ele o mundo. A vida toda agira para ajudá-los, e era feliz em seu entendimento.
Mas não naquele estado de dor. Negou o quanto pôde, mas a semana sofrida o forçava a lembrar de Camila. Já não pensava na morte como uma parte do mundo. Via uma nova verdade, mais afim com a que seu corpo queria dizer. A morte era odiosa e assustadora, um acontecimento vergonhoso que tomava os sonhos de quem morria e punia os que ficavam. Não aceitava que ele, que sempre fora tão bom, não tinha o direito de viver com a esposa. Não era justo e não era certo!
Forçava-se a pensar com a calma de antes, a compreender o mundo como um fluxo de acontecimentos interligados e finitos. Mas não poda lutar contra a obviedade de que tudo era sobre ele: a morte da esposa, a ONG e até mesmo aquela desejada e ridícula festa. Era impossível que seus feitos pudessem ser esquecidos ou tornados incolores.
Ficou calado por muito tempo. Da janela, procurava no céu, no muro da ONG, e até nos carros preguiçosos pela rua, alguma forma de obter paz. E conseguiu. Concluiu que se tudo existia para ele através de seus olhos, ele era o próprio mundo, sob certo aspecto. Não seria mera parte no mecanismo do todo, e sim um tradutor que a partir daquele momento mudaria o mundo como lhe fosse favorável e culparia o escritor original pelo que lhe causasse dor.
V
Balões de todos os tipos espalhavam-se pelo o pátio da ONG. As crianças brincavam de caçar os de cores mais raras. Formaram três times e foram à aventura, incluindo alguns adultos como chefes secretos das equipes. Em meio à correria, cuidadores, professores e convidados do prefeito tomavam vinho e falavam sobre o futuro da instituição.
Humberto estava satisfeito. Há pouco participara de uma discussão sobre a ONG. Ele e dois empresários avaliavam possíveis benfeitorias para a instituição. Humberto convenceu-os a assinarem cheques ao invés de construírem. O dinheiro maleável, explicou, permite melhor ajustamento às necessidades das crianças. Tudo ocorria como caladamente planejado durante a tarde. Juntou-se a Joana e Fernandez para trocarem impressões. Gozava feliz os últimos momentos antes da homenagem.
Tavinho e Marcela estavam brincando do lado de uma mesa quando o prefeito subiu ao palco para proferir seu discurso. Humberto suava, mal podendo esconder a agitação. Tinha grande planos para si mesmo. Dividiria com as crianças os benefícios da ONG. Lucraria de alguma forma, decidira que esse era seu direito de criador.
Tavinho e Marcela, alheios às palavras pomposas do prefeito, tropeçaram um no outro depois de um movimento desajeitado. Para não caírem puxaram a toalha da mesa. O prefeito pediu para que Humberto subisse ao palco. Antes que pudesse chegar à escada um grito chamou a atenção de todos.
As duas crianças choravam e sangravam. Haviam sido cortadas pelos pratos derrubados. Muitas pessoas juntaram-se em torno delas tentando entender o que ocorrera. Humberto conteve-se para não gritar de raiva ao perceber que o prefeito também descera do palco. Os cortes não eram profundos, mas requeriam cuidados que iam além da capacidade da enfermaria da ONG; precisavam ir ao hospital. Marcela e Tavinho protestavam, chorando alto. Acalmaram-se apenas com a sugestão de que o tio Beto as levaria.
Humberto engoliu a raiva pelo momento perdido. Percebendo que todos aqueles olhos esperavam uma ação de sua parte, concordou prontamente em conduzir as crianças. Fernandez decidiu acompanhá-los. Cada um deles pegou uma das crianças no colo e correu para o carro. A determinação de Humberto escondia um pensamento tumultuado. O que lhe abrandou foi pensar que sua ação rápida no incidente poderia lhe gerar mais promoção.
Mais promoção. Gostou da nova idéia. Ela lhe tomou o pensamento. Não conseguia entender o que Fernandez falava do banco de trás.
Tentava adivinhar se fariam uma outra festa ou se essa continuaria de onde havia parado. Ouvia algum barulho no banco de trás.
Decidiu que no hospital contaria como socorrera as crianças imediatamente; diria o nome da ONG, talvez o conhecessem. Seria ótimo.
Para onde estava indo? Ah, claro, para o hospital. As pessoas da festa, pensava, devem ter se surpreendido com o amor das crianças por mim. Não entendia aquele barulho no banco de trás, havia alguém ali?
Olhou pelo retrovisor e viu apenas seus olhos. Pareciam-lhe extraordinariamente coloridos. Eram dois planetas lindos, azuis e verdes. Não podia conceber nada maior do que ele mesmo.
Acelerou excitado sem ver o semáforo vermelho e o caminhão.
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O anjo de cristal
O Anjo de Cristal Estava lá. Em cima da estante de madeira escura, que eu nunca soube identificar. Aliás, nunca soube identificar madeira nenhuma. Jacarandá, pinus, cerejeira, carvalho… Nunca soube dizer com precisão de que madeira um móvel é feito. Tudo o que eu sabia é que aquela estante de madeira escura era antiga, muito antiga. E que tinha sido meu bisavô quem tinha trazido da Itália, para dar de presente de casamento a minha bisa. E que encima dela tinha algo, um objeto esculpido num cristal sem máculas: um anjo.Não havia quem entrasse na sala de estar de vovó e não elogiasse o bibelô. E, claro, não havia neto que não planejasse alcançá-lo, não por malcriação, mas porque entre os netos corria a lenda de que o anjo era sagrado, como se, quando o tocássemos, sairia de dentro dele um outro anjo, lindo, de verdade.
O engraçado é que minha família nunca foi religiosa. Não íamos à missas, nem cultos, nem nada. Tudo o que acreditávamos é que existia um Deus, e nós, netos, acreditávamos também no anjo. Mas a verdade é que nunca conseguimos nada. Parece que a cada plano esboçado, vovó desconfiava e ficava lá, do lado da estante, tricotando o fim de semana todo. E depois, claro, os netos cresceram. E, crescendo, esqueceram dessas bobagens de anjo. Mesmo porque vovó também começou a se esquecer das coisas e não fazia muito sentido perturbá-la por tão pouco. E, se digo ‘os netos’ e não me incluo, é porque EU não esqueci. Talvez pela distância, mas acho que principalmente por ser a mais nova, nunca deixei de ir visitar vovó. E foi ao meu lado que ela foi envelhecendo, algumas vezes tricotando blusas para mim, outras contando histórias.
Vovó foi a pessoa mais doce que conheci. Não havia quem não gostasse dela, quem não recebesse um carinho dela num momento de tristeza, um beijo num momento de alegria. Ela falava da infância dela, de como eram as coisas ‘naquele tempo’, que menina não usava saia curta, nem batom e namorar só com os pais presentes. Não que vovó fosse conservadora, pelo contrário. Ela achava ótimo os avanços, a abertura que os jovens têm hoje. Mas alguns ditos avanços ela não concordava e até hoje dou razão a certas coisas que ela dizia.
Eu sempre soube que era a preferida, mas as razões eram óbvias para mim. Dos quinze netos, eu fui a única que continuei indo lá quando as coisas começaram a piorar na cabeça dela. E nem mesmo eu entendia porque eu ia lá, enquanto todo mundo tinha o tempo ocupado com os estudos, os jogos e os trabalhos. Nunca pensei que os outros tivessem abandonado vovó. Afinal, ela era bem cuidada pelos filhos, pelos amigos. Vivia recebendo visitas e mesmo depois que ela começou a esquecer o nome das pessoas, continuou tratando a todos com muito carinho. Mas o netos quase não apareciam mais. Diziam que não tinham tempo, e não queriam incomodar vovó. E eu ia sem saber porquê, mas era tão gostoso ficar ao lado dela que nem me importava em achar a resposta.
E havia também o anjo. Durante todo o tempo que estive ao lado de vovó, aquele anjo de cristal me hipnotizava. Vovó sabia do encanto que o anjo tinha sobre todos nós. Acho que por isso demorou tanto para me contar a sua história. Ou então porque não queria causar crise de ciúmes nos outros netos. Mas um dia a preferência falou mais alto e ela me chamou, sentada ao lado da estante. “Vem, filha, eu sei que você quer saber. Mas acho que vou decepcioná-la”. E, de certa forma, decepcionou mesmo. Disse simplesmente que meu bisavô, entre outras coisas, foi comerciante e, durante um tempo, teve uma loja de cristais. Nada de especial, não eram cristais caros, raros, nada. Apenas cristais. E foi nessa época que a bisa engravidou. Durante os meses seguintes, muita coisa aconteceu e o pai de vovó teve que vender a loja. No dia de entregar o comércio ao novo proprietário, meu bisavô recebeu uma caixa com novos cristais. Ele nem tinha pensado em abrir, pois sabia que aquilo já não era mais dele. Mas no momento que entregava as chaves, soube que minha bisavó tinha entrado em trabalho de parto. Não querendo chegar em casa sem um presente (pois a chegada de vovó era prevista para dali a duas semanas), pediu ao novo dono que pudesse escolher um presente para a mulher entre os cristais. Claro que o dono permitiu.
Então ele abriu a caixa recém chegada e o primeiro objeto que viu foi o anjo. E meu bisavô sentiu o mesmo encanto que todo mundo sente quando via o anjo pela primeira vez. Como bom conhecedor de cristais, percebeu logo que não era uma peça comum. Era um cristal perfeito, sem uma bolha, um defeito. E a expressão do anjo, então! No exato momento que vovó nascia, meu bisavô tirou o anjo da caixa, e no exato momento em que vovó era embrulhada em lençóis limpos, o anjo era embrulhado para presente. O mais novo papai da cidade chegou dez minutos depois do nascimento e disse à esposa: “Esse anjo de cristal é a nossa filha”. E desde então a peça foi guardada com todo amor. Quando os pais de vovó morreram, o anjo ficou com ela. “E isso é tudo, filha”, disse vovó. Claro que era uma história bonita, mas acho que eu esperava mais. Sei lá, alguma lenda, uma superstição. Queria que vovó dissesse que realmente existia um anjo preso no cristal, não sei. Descobri também que essa história não era nenhum grande segredo. Muitos primos já tinham ouvido essa história, mas não da boca de vovó, com o jeito de contar histórias que só as avós tem. E isso me enchia de orgulho. Valeu a pena ser a última a saber.
E então estava eu, sentada aqui nessa mesma sala, pensando qual o mistério desse anjo. Ele ali, me olhando, dizendo ‘não é só isso, Luana, tem mais, eu sou mais que um simples presente’. Talvez seja coisa da minha cabeça. A verdade é que, depois que vovó piorou, passei tardes inteiras aqui, como se o anjo pudesse me consolar. Sabia que vovó ia morrer. E que faltava muito pouco para isso. Mas é difícil perder a pessoa mais importante da vida da gente. Talvez mais que a minha mãe (aliás, mamãe sempre teve ciúmes dessa nossa relação).
Lembro do dia em que estava pensando em como ela gostaria de estar aqui, na sala, tricotando enquanto a chuva caía lá fora. Ouvia ela dizendo que esse era o clima ideal para se pensar na vida, e que não há maneira melhor para se pensar que tricotar. Parece que escuto a sua voz: ‘se bem que hoje tem vento demais’. Vovó nunca gostou de vento. E naquele dia ventava muito, mas mesmo assim eu resolvi abrir a janela da sala do anjo. Vovó estava no quarto. Minutos antes ela disse que estava cansada, que ia dormir. Me virei para a estante e fiquei olhando o anjo. Queria tanto que ali tivesse um anjo de verdade… Quem sabe assim eu pedia para ele ajudar vovó, ou quem sabe me ajudar a ser forte. E, de repente, um sopro mais forte entrou pela janela, e foi direto ao anjo de cristal. Ele balançou, balançou e caiu da estante escura. Nada consegui fazer, nada. Mas no instante que o anjo se espatifou no chão, percebi que as minhas crenças infantis não era falsas. Eu senti que naquele instante, um anjo se libertava e voltava ao céu, de onde saiu para embelezar o mundo lá fora. Fui até o quarto e dei meu último beijo em vovó.
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O que é carnaval
‘Se eu deixar de sofrer
como é que vai ser para me acostumar?
Se tudo é carnaval eu não devo chorar
Pois eu preciso me encontrar’
Essa histeria coletiva, essa avidez por música alta e despreocupação com horários, essa debandada de pessoas querendo dissolver as amarguras e os problemas em purpurina e lantejoulas, em confetes e serpentinas, querendo se fantasiar, se esconder, se fazer de outro, se encontrar no outro, se entregar ao outro, se esfregar no outro, essa folia regada à batuque que remete aos ancestrais, esse comportamento sexual promíscuo, essa agitação cultural e social desenfreada, esse atrativo internacional, essa indústria muitas vezes baseada na contravenção, essa exaltação ao corpo que ludibria o espírito, chama-se carnaval.
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Maquiagem
Hoje eu me maquiei para ir ao trabalho
Pus rímel
Passei lápis
Passei batom
Cobri com pó e base
Minha pele tão bem hidratada com lágrimas
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Carta do amor exagerado
Meu amor,
Perdoa-me por chamar-te de meu amor. Sei com o coração pesado que já não estamos juntos, mas não posso resistir a este eco do passado.
Escrevo-te porque não sou infinito e tu também não és. Caso pudéssemos viver para sempre, a carta não teria sentido. Na alma eu saberia que em um dos dias a vir, desta ou de outra geração, ficaríamos juntos, pois apenas nós caberíamos um no outro. Contra o meu gosto, porém, a vida tem limite imprevisível e preciso falar a ti, mais esta vez, que te amo.
Esta carta é o último sopro de uma esperança em decadência. Ela não morrerá, mas mudará qual lagarta. E esta minha vida, estou a abandonando, sendo estas palavras o selo de um tempo para o início de outro. A missiva é um sorriso que uma vida ingênua dá a outra, na tentativa de fazer perdurar o amor, sem saber que meu amor por ti não poderia ter fim.
Talvez as palavras rebusquem demais o que sinto, ou façam parecer que meu amor é demasiado fantasma, demasiado etéreo para ser apreciado. Ou talvez o oposto ocorra: as palavras podem esconder a liberdade do meu amor. Pois eu digo com quaisquer palavras e sem confusão: amo-te simplesmente, de modo livre e certo.
Amo em ti teus olhos, e o que sai da tua boca, e o carinho que tua mão faz. Amo teu modo de sorrir, teu grito de raiva e teu abraço de amor. Amo como te despias para mim nas noites loucas. Amo tua voz doce, tuas pernas onipresentes, teus dedos de piano, tuas costas de seda e até teus passos mais trôpegos.. Amo-te toda, amo-te tanto… Minha existência balança quando te vejo, e mesmo quando lembro de ti seguindo um fio solto da memória, tremo, e rezo ateu por tua felicidade.
Não tentes decifrar meu amor, nem penses em como me responder de forma delicada. Não tens de me responder, amando-me ou não. Também não deves sentir-te lisonjeada ou pesada. O que sinto não tem intenção de cansar-te nem de elevar-te. É simplesmente amor. Então nada te peço, senão que aceites meu sentimento. Isto te peço, e só: aceita meu amor que é, de fato, teu.
O mundo, se falasse, diria que é meu amigo, pois te mostrou a mim. Tu és minha professora da vida. Querer-te e não poder dividir contigo o mundo é a máxima lição a ser aprendida. Tu me dás esta lição com um sorriso pleno e sem nenhuma maldade, e assim entendo, mesmo mergulhado em sofrimento, a natureza de tudo quanto existe: a verdade maior da impermanência, e como gera a dor que também deverá sumir. Mas aprendi também que meu amor por ti é mortal na mesma medida em que sou, e só comigo deixará este mundo.
Não sinto mais o amor fraco da dependência, o qual permite o desmembramento da razão. Amo-te o amor maduro do homem para a mulher. Tua felicidade quero sempre, junto ou longe de mim. Assim também, minha festa não exige tua presença, mas a convida ternamente, sabendo da luz que irradia de ti por seres quem tu és.
É-me difícil encerrar esta carta, pois lendo tu pensas em mim, e ao fim dela posso ter acabado. Queria poder manter em ti o pensamento em mim e ter o poder de conjurar-te com estas palavras tolas.
Entende que isto não é papel, e sim verdadeiros fatos. Meu amor é largo e concreto. É desejo de cuidar de ti, paixão por ver-te livre e crescendo. Meu amor são mãos firmes para construir contigo a vida como nos convir. Sou corpo, e sou mundo, e sou para ti. Sou beijos, carícias e servo da paixão nas noites longas. Sou forte quanto precisares, rocha pontiaguda contra teus problemas, ombros macios para tuas mágoas.
Sem ti eu vivo em um mundo,
Contigo eu viveria em dois.
Quanto estiveres sozinha, lembra-te que te amo.
F.
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