Amor e necessidade
Estou do lado de fora do banheiro feminino esperando há cinco minutos. Deus sabe o quanto tive que passar para fazer o que fiz hoje, o tamanho da luta minha contra mim mesmo até que eu finalmente conseguisse que tudo estivesse no lugar certo. Mas Deus mostrou direitinho o tamanho que tem, e me fez para sempre pequeno enquanto espero desesperado na frente desse banheiro há cinco minutos. Lembrando como vim parar aqui, eu não seguro uma risada, que tento trancar na minha boca e sai como com um barulho estranho. Mas a risada podia ser igualmente um choro, porque não sei se minha história é drama ou comédia.
Acho que desde que descobri que gosto de meninas, naquela época da vida em que descobre que gosta de meninas, eu gostei de Amanda. Talvez eu tivesse descoberto que gosto de meninas muito mais tarde, e ficasse mais um tempo da minha vida sem sonhar e sofrer todas as noites, se não tivesse conhecido Amanda. Falar o nome dela é suficiente para que um milhão de memórias de coisas que nunca aconteceram encham minha cabeça. Seria tão bom Amanda correndo comigo, Amanda falando comigo, Amanda pelada comigo…
Eu espero que ela esteja neste banheiro por pelo menos cinco minutos…
Eu fiz dezoito anos, e aprendi a dirigir. Alguém colocou na minha cabeça que depois que eu tirasse carta eu poderia conquistar Amanda e, como sempre fui tolo, acreditei. Antes disso eu freqüentemente enviava cartas de amizade, e lhe dava chocolates, e tudo que um menino apaixonado faz por uma garota, mas nunca minha timidez permitiu que eu dissesse a ela o que eu sinto de verdade. Um pouco por me sentir ridículo em amar alguém que nunca havia me tocado. Eu prefereria, é verdade, amar Amanda apenas depois que ela me beijasse, mas não foi essa a ordem em que as coisas aconteceram.
Meu pai me emprestou o carro, pois sabia que com ele eu conseguiria coragem fantasma para convidar Amanda para sair só eu e ela. Fico me perguntando como fui me tornar uma pessoa tímida… Pelo que lembro foi uma combinação bastante curiosa de amor e mau tempo. Sendo que eu sempre amei Amanda, nunca me senti inclinado de falar com outra garota, e me lembro que há muitos anos atrás eu disse a Amanda que gostava dela. Ela estava em uma fase em que ainda não havia aprendido a gostar de meninos; pelo menos é o que concluo vendo tudo de hoje. Talvez se eu tivesse ido falar com ela um ano mais tarde ela diria que gostava de mim também… E eu não ficaria traumatizado e bobo todos esses anos.
Eu liguei para ela e perguntei se ela queria ir ao cinema. Ela respondeu que “sim”. Eu quase falei besteira no telefone, depois do “sim”, de tão excitado que me senti. Era como se o “sim” dela fosse ela abrir as pernas em posições iguais as dos filmes pornográficos. Acho que se alguém uma dia entender como um “sim” pode ser tão poderoso merece algum tipo de prêmio de estudos humanos. Ou animais.
Fui pegar Amanda com a minha melhor roupa. Ela estava mais linda do que sempre tinha sido linda. Vestia uma blusinha bem colada no seu corpo, e seus lábios estavam rosas do rosa mais excitante do universo. Ela estava de salto alto, e eu sabia que isso fazia com que ela ficasse da minha altura. E só depois dos joelhos é que sua saia aparecia (uma saia!!)… Antes de sair do carro eu me olhei pelo espelho do carro para ter certeza de que por algum motivo misterioso eu não estava preso para sempre naquela imagem de Amanda.
Eu abri a porta para ela e beijei seu rosto tão cheiroso. Ela me agradeceu com a voz de Amanda. A voz de Amanda, a mesma que disse “sim”, disse “obrigado” enquanto entrava no meu carro com uma saia (uma saia!!)… Eu comecei a dirigir pensando que provavelmente nós não chegaríamos ao cinema porque eu bateria o carro hora ou outra perdido em pensamentos.
Nós sentamos na praça de alimentação do shopping e Amanda disse que tomaria cerveja. Aquele conceito não era fácil para mim, mas Amanda tinha razão. Agora eu tinha carta, dezoito anos e estava com uma garota maravilhosa. Sem dúvida nenhuma eu devia tomar cervejas. E tomei algumas, mais do que nunca, pois nunca havia tomado. E foram as cervejas que me colocaram, uma hora ou outra da minha vida, na frente deste banheiro feminino há agora sete minutos.
Durante nossa conversa enquanto bebíamos cerveja, eu disse a Amanda que a achava muito bonita. Acho que a cerveja disse em meu lugar, na verdade. Mas depois conversamos bobeiras até o filme começar. Eu nunca poderei dizer do que o filme se tratava, pois eu estava mais preocupado em descobrir um sistema perfeito para agarrar a mão de Amanda. É engraçado pensar que eu não queria dar bandeira de que eu estava a fim dela, mas não havia outro jeito de eu um dia beijá-la sem que ela soubesse que eu estava a fim dela. Esse deve ser algum tipo de paradoxo que os garotos bestas como eu enfrentam.
Lá pela metade do filme um outro problema se apossou de mim. Agora além de me preocupar em botar a minha mão na mão de Amanda, bem próxima àquela saia dela, eu tinha que me preocupar com uma vontade ignorante de mijar. Mas que coisa, eu pensei! A vontade era forte o suficiente para lutar contra Amanda. Eu não podia aceitar que um amor pudesse ser superado por uma porcaria de uma vontade de ir ao banheiro. Não fazia o mínimo sentido! Eu não iria ao banheiro.
Depois de certo tempo, sem perceber, eu pensava em Amanda não como uma mão em que pôr a minha mão, e uma saia a quem olhar por baixo… Pensava nela do modo do amor mais puro, que tinha que vencer tudo, até mesmo a vontade mais absurda de ir ao banheiro. Era a natureza contra o sentimento superior, e Amanda tinha que ganhar da minha bexiga ridícula. Por esse tempo, eu não tentava mais tocar Amanda, eu pensava nela como um farol que me guiava contra as trajetórias insanas do corpo.
Quando o filme acabou eu agarrei a mão de Amanda com firmeza! E vi nos olhos dela que ela ficou admirada. Ou assustada, mas prefiro a primeira opção. Mas não agarrei a mão dela por coragem, por ser qualquer tipo de príncipe cavalgando qualquer tipo de cavalo branco ou sei lá. Agarrei para puxar ela para fora do cinema o mais rápido possível. Eu estava tão desesperado para ir ao banheiro que decidi que daria um beijo nela o quanto antes para poder mijar o quanto antes. Quando pensei aquilo eu juro que me achei genial. Utilizar o inimigo como um aliado e disfarçar o desespero em um ato de coragem e atitude.
Quando pisamos fora da sala de projeção, olhei nos olhos de Amanda e disse “eu te amo”. E antes que ela pudesse responder eu dei um beijo nela, um beijo que eu nem senti. Um beijo absolutamente ridículo, em todos os sentidos que a palavra ridículo pode significar. Era ao mesmo tempo meu primeiro beijo, o beijo pelo qual eu havia esperado quase a vida toda, o bejio que devia dizer a Amanda o quanto eu a amava, o beijo que deveria ser perfeito, enfim. E este beijo saíra como um foguete apressado, de uma vontade mais de mijar do que de beijar, tentando se aproveitar de um desespero para se fingir corajoso. Aquilo me fazia sentir ridículo…
Logo depois do beijo fiquei alguns segundos olhando para os olhos de Amanda, tentando apreender qualquer tipo de pista sobre o que ela havia pensado, sentido, ou o que for, daquele beijo e da minha declaração. Após esses segundos eu berrei “já volto” enquanto corria desesperadamente em direção ao banheiro.
Abri as calças, coloquei meu amigo para fora e descobri o que era o paraíso. Enquanto eu mijava eu me perguntei se um dia qualquer tipo de amor poderia ser tão absolutamente delicioso quanto aquela sensação de alívio. Eu descobri naquele momento que tudo que eu sentia por Amanda não era nada comparado à sensação que tirar de mim aquele fardo proporcionava. Mas conforme eu fui me esvaziando de desespero, meu amor por Amanda foi novamente se impondo como o sentimento mais forte. Isso me fez desconfiar que o ser humano é a coisa mais volúvel do mundo, podendo amar e desamar por motivos idiotas como a vontade de ir ao banheiro. E que devia haver alguma espécie de equilíbrio de forças que impossibilitavam que dois grandes sentimentos ocorressem ao mesmo tempo. Depois de limpar de mim aquele sentimento horrível, eu novamente era só amores para com Amanda.
Eu precisava encontrá-la de todo modo, dizer o quanto antes que eu a amava realmente, pedir perdão por sair correndo, dar um outro beijo, um segundo que deveria ser considerado o primeiro beijo, aquele que devia ser o beijo dos beijos. Mas não a encontrei em lugar nenhum. Olhei para os lados, corri por um certo tempo de um lado para o outro, até que decidi que ela estava no banheiro ou tirando do corpo a cerveja ou fazendo outra coisa qualquer.
E agora estou há oito minutos aqui na frente, esperando sair por aquela porta a mulher que amo, a mulher que primeiro beijei e que em uma noite só foi capaz de me fazer entender mais sobre a vida do que muita gente idiota que já vi por aí. E claro que estou envergonhado, meio chorando e meio rindo dessa história toda.
É a décima vez que a porta abre. Eu espero que seja ela. Sim, é ela! É ela! É ela… É Amanda… estou tonto… ela sorri?
Filed under: Conto, Robson | 4 Comments
Brero, gostei muito. Mas isso já tá ficando chato, eu sempre digo isso. Mas ri muito da comparação do amor e da vontade de mijar, até pq acho que qualquer pessoa que já passou pelo aperto de ficar apertado para ir no banheiro sabe que não tem felicidade maior que essa. Igual, como a do primeiro beijo, o primeiro amor, o primeiro filho, até deve ter. Maior não!
Achei que essa sacada foi muito boa, e deu ao texto um contraste legal com a parte romântica e tals. E a gente acaba se identificando, de alguma forma…
Enfim…
beijão
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ti amo..
quero só vc bb.
vc é um idiota!!!