Se algo poderia ser diferente
Com a arma na mão, depois do tiro certeiro, encarando a cabeça aberta, o sangue escorrendo como que despreocupado, ouvindo as sirenes se aproximando, e o choro da sobrevivente encostada na parede, sentindo um poder doentio, junto com um medo absurdo, um cheiro de fumaça subindo da arma, um latido de cachorro preso pela coleira, coleira, cólera, descobrindo que tudo aquilo que era movimento estava ali parado, escorrendo a vida do cérebro que antes pensava e agora parece uma piscina estranha, ouvindo o choro da sobrevivente encostada na parede e as súplicas pela vida que está na mão de um assassino, sentindo tremer na carne alguma sinfonia libertária, tal qual os que têm a marca da mudança, coçando a pele na testa, como se na testa a marca da mudança se fizesse, desejando se ver livre da fraqueza humana, questionando o apego à vida, boicotando pensamentos que procuram basear a fraqueza, sentindo cada vez mais forte a liberdade de não ter esperança, abraçando a idéia de ser um degenerado absoluto, abrindo o caminho certo por métodos incertos, gargalhando um pouco de medo e um pouco de desespero da paisagem vermelha, ouvindo o som das sirenes encostando agora, olhando o cano da arma, olhando o gatilho capaz de mudar tantas vidas em um movimento, pensando no castigo do crime, argumentando que não era um crime, avaliando que só era um crime para uma parcela de pessoas prisioneira de poucas idéias, sentindo a marca da mudança a lhe perturbar a testa, questionando de onde tudo havia começado, olhando a esposa, a sobrevivente, chorar sobre o corpo do amante, apontando para ela a arma já usada, tirando da esposa a vida que ela lhe tirara, caminhando até o espelho, ouvindo o barulho da porta lá embaixo sendo arrebentada, caindo calmamente no chão do banheiro, amando aquela liberdade que vinha da destruição do comum, apreciando o grito dos policiais, os justiceiros perdidos de um ideal estúpido, marcando sua entrada em um mundo de outras regras…
Diante de tudo aquilo ele se perguntava se algo poderia ser diferente.
(Texto de aniversário para a Renata, que fez aniversário sábado. Tema livre, né?)
Filed under: Conto, Robson | 1 Comment
Será que reconheço um estilo cadenciado, bem do jeito q eu gosto???